Maquina de Contos - Capitulo 2

<Capitulo 1

    David acorda mal... muito mal... tão mal como todos os outros dias que exagerou na bebida e seu rosto fervendo, sua indisposição e dor de cabeça mostram que exagerou perfeitamente desta vez. Levanta-se lentamente enquanto tenta se situar e organizar o que vai fazer nesses primeiros momentos da sua tarde. Pra qualquer outra pessoa o ritual seria simples de lembrar, mas a ressaca bate tão forte em David que o desnorteá a ponto de não saber nem aonde esta... como é o caso de agora, onde não se lembra como foi do bar pra sua casa, houve um tempo em que se ficava com medo ao ficar nesse estado, mas ficou tão rotineiro que nos dias de hoje essas lacunas vazias se tornaram mais uma casualidade do porre.

    Lá esta David, em pé na sala, tentando se decidir qual é o próximo passo a tomar enquanto tenta fazer a sala parar de rodar... é deprimente o estado de David, é como ver uma vitima de lobotomização temporária, eu não aguento isso, preciso que ele faça algo, preciso que ele dê algum sinal de vida cerebral... David decide ir ao banheiro tirar aguá do joelho, vai praticamente de olhos fechados de tão forte que é sua dor de cabeça, faz sua necessidade apesar de sua mira falhar um pouco e logo depois volta a pia para poder lavar o rosto, mas é ai que David consegue sua primeira dica para todo o lapso que teve da noite anterior: No contato da aguá com seu rosto, percebeu uma dor forte em seu olho esquerdo, ao olhar para o espelho repara um inchaço roxo no mesmo, assustado com sua aparência procura uma forma de diminui-lá com a mão enquanto tenta lembrar o que causou isso... o que obviamente só acaba lhe causando uma dor lancinante, apressando-se em aliviar essa dor e o inchaço, correndo até a cozinha acaba por dar uma bicuda com o dedinho do pé esquerdo na lata de lixo e ambos caem (Lata de lixo e David).
    O único objeto a cair da lata de lixo e, de certo modo o objeto chave atualmente para esta história é a folha em que David escreverá no capitulo anterior, por alguns segundos sua dor parou e David continuou fitando aquela folha amassada como se de alguma forma aquele hematoma em seu rosto viesse daquele papel. Enquanto relia seu texto, até tentava, mas não conseguia apagar a ideia ridícula de que aquela maquina de escrever tinha a ver com tudo aquilo, que de alguma maneira tudo que escrevera na noite anterior realmente aconteceu daquela forma somente porque narrou daquela forma... realmente era algo ridiculo para se acreditar, não? Bom... para David talvez não, tomou seu café da manhã que nunca tomava, fingiu procurar alguns documentos antigos aparentemente sem propósito algum, mas tudo que fazia era olhando de relance para aquela maquina de escrever em cima da mesa da cozinha, aquela mesma maquina que parecia lhe encarar em qualquer comodo que fosse... lhe causava um incomodo tão grande, que parecia estar prestes a receber uma facada! mas da maquina de escrever?
    Havia chegado a hora favorita de David, a hora de ir pro bar, mas não conseguia parar de encarar a maquina de escrever, era como se ela estivesse lhe desafiando... debochando... uma sedutora maquina de escrever antiga que debochava de sua impotência... de sua incapacidade em escrever algo, nem que seja pela sua própria vida... "sua própria vida?" David se pegava delirando outra vez, caindo na provocação outra vez, mas precisava provar para si mesmo que podia escrever e que tudo aquilo não passava de um delírio de seu raciocínio sóbrio... lá estava ele, em frente a maquina de escrever tão desafiadora, com o papel devidamente colocado e seu copo d'agua de enfeite do lado da maquina. David parou uns segundos, fechou os olhos imaginando o que escreveria e mesmo sem saber direito o que escrever começou por narrar onde o protagonista estaria:

    "O escritor falido encontra desta vez o empreendedor mirim, vendendo os doces habituais entre o sinal vermelho e o sinal verde do farol, sonhando com a multiplicação de seus bens e a saúde de sua família, encontrou finalmente a solução de seus problemas ao receber dois reais da mão do escritor lhe dando uma bala a mais e conseguindo em uma semana, mais do que o escritor falido conseguiu com seu último livro.
    O escritor falido também reencontra ao chegar no bar por seus amigos da noite anterior, o cara rico e o operário, que lhe explicam finalmente o que aconteceu como um pedido de desculpas:"

    David parou por um estante e sentiu um bloqueio vindo, não conseguia imaginar porque diabos o homem rico e o operário brigavam, não conseguia nem pensar nos mais clichês dos motivos... deixando uma lacuna que ia até o final da pagina.

    "Em casa, o escritor falido reencontra os braços acolhedores de sua amada, que o cobre de carinhos até este cair no sono."

    "Ora essa, não custava nada tentar..." pensava David, reavaliando tudo que escreveu até então, em cada paragrafo deixou implícito um desejo, um tipo de pedido: no primeiro paragrafo havia um desejo de saber se tudo que escrevia realmente aconteceria ou se era só uma coincidência, por isso colocou detalhes momentâneos como quanto deu de dinheiro e a bala a mais que o garoto daria, achava difícil de encontrar esse garoto uma vez que o bar era a dois quarteirões de sua casa e a única rua que atravessava não era tão movimentada para haver vendedores. No segundo paragrafo existia o desejo de saber o que realmente aconteceu entre o operário e o homem rico e finalmente dar nome a eles, isso é claro só depois de confirmar as suas suspeitas sobre a maquina. O último paragrafo é duvidoso tanto para David quanto para o narrador desta história, ele releu três vezes o trecho, mas ficou pensativo se aquilo era o seu desejo totalmente ao pé da letra ou se só precisava de sua mulher para conseguir mais dinheiro uma vez que a sua mesada estava acabando, talvez eu não o conheça tão bem, mas devido aos últimos anos diria que é a segunda opção...
    David havia se libertado daquela maquina de escrever, pelo menos em partes, ainda teria que ir para o bar e a ansiedade de ter as respostas era a vontade que predominava agora... pela primeira vez, talvez na vida, não estava indo para aquele bar para encher a cara e sim para obter respostas sobre a história do operário e do homem rico , apesar disso, ao dar os primeiros passos que o levaria ao bar, David começou a baixar as expectativas, ou pelo menos tentou... não conseguia acreditar que estava acreditando que aquela maquina de escrever era de alguma forma magica e que tudo que escreveria nela fosse se tornar real; "mas que besteira..." dizia nosso protagonista enquanto continuava seu caminho prestando muitas atenção em todas as pessoas em sua volta... agora precisava provar pra si mesmo que aquele menino existia, ficou temeroso ao pensar que aquilo tudo foi só uma coincidência, que nada de excitante aconteceria em sua vida e que depois que provar que tudo aquilo não era real, sua rotina de bêbado depressivo continuaria até que fosse consumido pela mesma... David precisava de uma alternativa que não fosse encarar a realidade, pois era a reflexão dela(e talvez o vicio do álcool) que lhe colocava no bar todos os dias... a presença perturbadora daquela maquina de escrever de repente não lhe incomodava tanto assim.
    Antes que pudesse perceber David estava preste a atravessar a única rua que ficava entre sua casa e o bar... a rua estava livre, mas hesitou mesmo assim... era como se estivesse esperando pelo empreendedor mirim, mas a rua estava deserta, não havia sequer uma alma viva em toda a extensão da calçada e David foi forçado pelo bom senso a atravessar a rua, mas... ao chegar do outro lado alguém chamou sua atenção.
    -Com licença, senhor? - David se virou e percebeu um adolescente um tanto tímido que trajava roupa social, ficou surpreso com isso, mas se conteve e esperou o adolescente fazer sua oferta - O senhor sabe onde fica esta rua?
    David ainda sem entender olhou para a mão direita do menino que mostrava um mapa impresso da região, demorou alguns segundos para compreender que o garoto precisava saber em que direção ficava uma escola técnica. Desconcertado e um tanto decepcionado com a situação uma vez que esperava que aquele fosse o "empreendedor mirim", talvez aquele menino fosse um empreendedor, mas não "O Empreendedor Mirim" de seu conto... infeliz e com mais vontade de beber do que antes, David deu a informação para o adolescente e após dispensá-lo foi se apressadamente a passos curtos e rápidos em direção ao bar, dessa vez sem tentar prestar atenção as pessoas que passavam. Ao chegar na porta de seu querido bar, David já havia se convencido de que tudo foi uma coincidência  e que estava predestinado á virar garrafas e mais garrafas em sua boca, copos e mais copos procurando o esquecimento de sua realidade e... por mais que David já soubesse da resposta negativa, antes de abrir a porta ousou se perguntar "não havia alguma forma de fugir totalmente da sua realidade?".

Autor: Vinícius Pacheco Silva

                                                                                                                                                Capitulo 3>

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