Maquina de Contos - Capitulo 3

<Capitulo 2

    Girou a maçaneta, abriu a porta, sino do bar tocou avisando que o novo cliente chegou, cumprimentou todos os frequentadores do bar de cabeça baixa, somente com um pequeno aceno de cabeça, mas nunca olhando diretamente para eles... dirigiu-se ao balcão, sentou-se e pousou sua vista em uma das varias garrafas de bebida expostas na prateleira, sentiu um vazio enorme crescendo junto com uma vontade de auto-flagelo, sua vontade era de se entorpecer tanto a ponto de não perceber que estava se afogando numa poça de álcool e vomito, não seria um jeito bonito de dar cabo de sua vida, existem outras drogas mais eficientes e destrutivas, porém a bebida era socialmente aceita...
de qualquer forma é curioso ver o quanto um suicida ainda se preocupa no que as pessoas vão pensar, mas acho que não podemos chamar David de suicida.
    O fato é que as coisas estavam diferentes no bar, havia uma tensão no ar que David não percebeu devido a sua depressão, mas ao pedir sua bebida ao dono do bar, este somente resmungou e continuo parado secando um copo. David sem entender porque ainda não haviam lhe servido, olhou para o dono do bar que neste momento continuava a secar obsessivamente o mesmo copo, seu olhar estava distante, mirando o fundo do bar, David tentou mais uma vez fazer seu pedido e novamente o dono só respondeu com um resmungo. Ao olhar pra trás David pode sentir a tensão, um silencio quase fúnebre, como se o bar estivesse prestes a ter um duelo no estilo faroeste, bem lá trás exatamente no mesmo lugar da noite passada, usando dessa vez um terno marrom, com uma gravata cinza e duas garrafas de cerveja na mesa, estava o rapaz da confusão da noite passada, o rapaz de terno branco, o mesmo rapaz de sua história... dessa vez parecia sóbrio, mantinha uma postura firme, como a de um homem de negócios bem sucedido e, apesar da resposta ser obvia, ousava se perguntar o que um homem bem sucedido fazia num bar daqueles. David sabia que devia falar com aquele rapaz, mas existia uma relutância, ele estava nervoso e não conseguia nem pensar numa forma cordial de se apresentar, quer dizer... David já esteve na presença de "amigos" ricos, e sabe que dessas pessoas é exigido uma apresentação formal, mas mesmo que soubesse se apresentar, não estava esperando a presença daquele cidadão... que fez questão de quebrar qualquer apresentação cordial esperada por David.
    - Hei champs(abreviação de campeão) sente-se aqui, vou pedir outra rodada pra todo mundo. - disse o rapaz de terno que, com toda certeza, era aquele que estava mais a vontade em todo o recinto. Na verdade nem mesmo aqueles que não tinham nada a ver com toda aquela situação continuaram tensos mesmo sabendo da nova rodada de cerveja. Agora David estava mais constrangido do que nervoso, a forma como o rapaz agia parecia totalmente inadequada para aquele momento... o que era estranho pois num dia qualquer, com qualquer outra pessoa aquela atitude seria normal e muito bem aceita num bar, mas o caso era que todos estavam aguardando o momento que o dono do bar fosse usar a gravata do granfino ironicamente para enforcá-lo... e quanto ao David... David temia que seria o próximo a ser enforcado.
    - Pois não? - foi tudo o que David conseguiu dizer.
    - Você por acaso é garçom deste lugar? pelo amor de Deus, sente-se.
    David ainda sentia o peso do olhar de todos sobre suas costas, mas apesar de tudo sentou-se junto daquele homem de negócios.
    - Primeiramente devo me desculpar pela noite anterior, vejo que minhas atitudes e de meu sócio trouxeram certas marcas para você e este bar. - Então o rapaz na roupa de operário na verdade era o sócio - meu nome é Arthur e eu e meu sócio... ahn... me desculpe, ex-sócio eramos donos de uma empresa de arquitetura, mas conte-me de você, soube que é um escritor famoso.
    David se deixou levar por alguns instantes pelo seu único sucesso literário e seu narcisismo aflorou na conversa de uma maneira absurda...
    - Sim, sou escritor, escrevi alguns artigos da revista "Rosto" e escrevi um livro muito famoso chamado "Sucesso".
    - Claro, já ouvi falar, um livro de auto-ajuda certo?
    - Na verdade é uma crônica de histórias da minha vida - É aqui que David volta a sua realidade - Já chegou a ler?
    - Só o resumo, uma mulher que eu estava afim na época estava lendo... e eu precisava de um assunto sabe? mas não gosto de livro de auto-ajuda.
    Pronto, David voltou ao buraco de sua depressão tão rápido quanto havia saído, uma queda surpreendente... tão surpreendente que foi impossível perceber a falta de tato que Arthur tinha para falar de qualquer coisa que não fosse ele mesmo, havia nele educação e consideração o suficiente para demonstrar interesse pela vida do próximo, mas sua consideração acabava ai... Arthur era prático e racional e isso acabava com sua vida social, ele era feito de um egocentrismo que talvez seja exigido de um homem de negócios, mas de alguma forma algo não havia dado certo nos negócios... Arthur parecia fugir do assunto, falando de coisas bem superficiais e que soavam errado até mesmo quando falava de algo comum num bar, como futebol ou mulheres, era como se Arthur estivesse forçando a situação.
    Arthur já um pouco embriagado, resolveu dar uma carona para David, que relutou um pouco, mas aceitou, afinal de contas eram só dois quarteirões até a sua casa e em linha reta numa rua pouco movimentada, o que poderia dar errado? bem... na primeira esquina o sinal fechou e o carro parou, um garoto que David nunca havia visto veio atravessando a rua e ofereceu doces ao carro dos dois. David reconheceu aquele momento pelo o que havia escrito anteriormente, correu abrir a carteira esperando fazer perguntas para o empreendedor mirim, mas estava sem dinheiro... teve que pagar algumas das varias rodadas do bar cujo Arthur disse que lhe pagaria mais tarde, mas David começava a duvidar disso.
    Arthur percebe um leve constrangimento de sua carona com a carteira e vê a aproximação do pedinte.
    - Abra o porta luvas, deve haver alguns trocados ai.
    estes alguns trocados eram duas notas de cem levemente amassadas, como se tivessem jogado elas lá com descaso, David as pegou com um pouco de ganância, mas assim que viu o garoto na janela se sentiu obrigado moralmente a dar as duas notas para o garoto, que agradeceu com um rosto alegre e surpreso e saiu correndo, talvez para avisar para a sua família... David se contagiou pela alegria da criança e acabou se esquecendo de fazer perguntas, queria manter contato com seu personagem - aquela criança era seu personagem? - sua mente estava longe imaginando todas essas possibilidades quando um tranco forte seguido de um grande barulho vindo da frente do carro lhe acordou: a land rover evoque de Arthur, bateu em cheio no carro da C.E.T.
    - Mas como isso aconteceu? - David se perguntava incrédulo, sem entender o que um carro da C.E.T. fazia ali naquela rua quase deserta.
    - Cara, eu não to legal... - Arthur abriu a porta e vomitou no que pensava ser o chão... sem perceber que eram as canelas do agente. David olhou para  o agente da C.E.T. e pelo semblante do mesmo sabia que não voltaria para casa tão cedo.

David aguardava no sofá da delegacia enquanto Arthur lutava com o delegado e mais o agente para fazer o teste do bafômetro, poderia dizer que não tinha nada a ver com aquilo, mas achou que seria muita sacanagem com o seu... novo "amigo"?... a verdade é que David estava adorando aonde tudo aquilo estava indo, digno de um bom conto de bar ou algo assim, estava numa situação que poderia ser contada num futuro livro talvez.
    - Eu conheço meus direitos, tenho direito de um advogado e de não querer fazer o teste do bafômetro... - Arthur dizia cambaleante para os dois agentes de segurança que tentavam de forma penosa desviar das braçadas involuntárias e exageradas do mesmo - calma rapaz que vou tirar a gente dessa - disse voltando-se para David - liguei para um conhecido meu que pagará nossa fiança.
    David se surpreendeu um pouco e ao imaginar quem seria, o dito cujo adentrou a porta logo em seguida e sim, era o operário, estava com roupas bem melhores do que no dia da briga, estava bem arrumado também, mas ainda demonstrava humildade no seu jeito de andar, sua postura indicava a postura de alguém que pratica esporte frequentemente, mas ao contrario de Arthur não sustenta a imagem de uma pessoa convencida... de um homem de negócios.
    - ha! por um momento achei que você não vinha... olhe, esses caras estão cometendo abuso de poder comigo e com meu amiguinho aqui... eu conheço meus direitos cacete!
    O operário olhou para ele com indiferença e pediu para falar com o delegado.
    - Calma que ele vai nos tirar dessa... talvez me enforque depois, mas vai nos tirar.
    - O que você fez para ele fazer aquilo no bar ontem? - David achou oportuno perguntar, uma vez que Arthur parecia mais calmo.
    - Basicamente eu vendi a empresa sem a permissão dele pra pagar uma divida...
    - Mas precisava da confirmação dele não é? se vocês eram sócios.
    - Eu o convenci a assinar um documento que me dava poder sobre 90% da empresa...
    Um silêncio se estabeleceu entre os dois uma vez que Arthur parecia muito mal com tudo aquilo e David não esperava que fosse algo tão grave, isso sem saber que ainda faltavam lacunas da história que seriam preenchidas pelo operário.
    - Meu nome é Gabriel, desculpe todo o incomodo que ele lhe causou... - disse o operário se apresentando para David, todos os três personagens agora do lado de fora da delegacia - acho que esta tarde pra você pegar um ônibus, lhe darei uma carona, venha.
    De fato passava das 2 horas da matina e a delegacia era um pouco longe de sua casa, não tinha o porque de recusar o convite, apesar de perceber que havia um certo estranhamento entre os dois... Arthur ficava calado e de cabeça baixa todo o momento, Gabriel se recusava olhar ou direcionar a conversa para seu ex-sócio e se mantiveram assim até Gabriel começar a dirigir sua Ford F-150 com uma singela placa na parte de trás escrito "vende-se" com seu numero na parte debaixo do carro. David se sentiu obrigado a sentar entre os dois, Arthur sentava-se um pouco encolhido, quase como uma criança acuada.
    - Peço desculpas pela noite passada, vejo que você ainda tem marcas do ocorrido no rosto. - David ficou um pouco surpreso, havia esquecido por alguns segundos de seu olho ainda um pouco inchado.     - eu perdi o controle, só quis descontar o ódio que estava sentindo em alguém, aquele soco estava direcionado para Arthur.
    David olha para Arthur que agora dorme totalmente virado para a janela e usando seu paletó como cobertor.
    - O que aconteceu para vocês brigarem desse jeito? - David perguntou fingindo não saber o que Arthur lhe havia contado.
    - Eramos donos de uma empresa pequena de arquitetura, estávamos crescendo aos poucos no ramo... cada um tinha 50% da empresa nas mãos, apesar disso nunca gostei de participar das reuniões com os clientes, eram chatas e tínhamos que explicar todas as partes técnicas do processo. Como funcionávamos e convencer ao cliente de que tínhamos algum diferencial em relação as outras empresas... pra falar a verdade nunca fui bom nisso, sempre gostei de botar a mão na massa, ele é quem conhecia o mundo dos negócios o suficiente para convencer os clientes em apostar em nós. Vendi uma certa porcentagem da minha associação para ele, o bastante para não precisar participar das centenas de reuniões e me concentrar nos projetos, mas... muitos clientes chegando e não estávamos dando conta, Arthur não quis recusar trabalhos e aceitou mais do que poderíamos fazer, nossa empresa deu vários calotes e ele acobertou tudo - nesse momento David percebeu a mão do Gabriel apertando com mais força o volante, mas mesmo assim estava concentrado em dirigir - numa tentativa tola de salvar a empresa ele a vendeu para um dos clientes, que demitiu todos os empregados, inclusive eu, e reformulou a imagem dela... isso pegou todos nós de surpresa... muito mais eu, que sou amigo desde a infância.
        - E quando isso aconteceu?
    - Algumas horas antes de chegar ao bar... os funcionários me perguntavam o que estava acontecendo enquanto eram avisados que estavam sendo demitidos, eu tentava ligar pra ele, mas aparentemente já estava bebendo a horas, foi ele quem me ligou dizendo onde estava... eu estava precisando bater em alguém, me senti impotente, traído, deixando o meu trabalho e meu sonho indo embora e comecei a beber no trajeto até o bar... não tenho esse costume e por isso fiquei bêbado muito rápido.
    Os dois ficaram em silêncio, Arthur que havia acordado e pegado a conversa pela metade agora fingia roncar, este mesmo silêncio perturbador se manteve até que chegassem na casa de David... que agradeceu a carona sem muita cerimonia e esperou o carro virar a esquina para entrar em sua casa... estava vazia, só a luz da cozinha se mantinha acesa, era impossível não perceber a maquina de escrever olhando para ele, mas David estava muito cansado para retribuir o olhar... deitou-se como estava na cama, retirou os sapatos empurrando-os com o pé no calcanhar e adormeceu num sono sem sonho.

Autor: Vinícius Pacheco Silva

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