Como Um Outro Dia Qualquer
16:15 - Olho para o relógio no meu pulso enquanto pessoas em minha volta se desesperam. Acabamos de receber a informação que o mundo acabará daqui uma hora. Todos ligando para seus familiares assustados, pedindo desculpas a quem ofendeu, perguntando o que aconteceu, procurando uma explicação para isso... simplesmente não vai fazer diferença daqui uma hora.
Enquanto os funcionários brigavam na tentativa de passar pela porta todos ao mesmo tempo, eu andei até a janela e pude ter uma visão panorâmica da cidade... uma bela obra de arte do caos com algumas pinceladas de fumaça. Tudo que fiz foi olhar no relógio e pensar "puxa, vou chegar tarde em casa". Não me levem a mal, só que quem mora em São Paulo sabe que toda aquela agitação, toda aquela desordem é diária... tenho certeza de que vocês leitores entenderão o que eu quis dizer nas próximas linhas.
Me demorei na espreguiçada e segui até a mesa para pegar minhas chaves, desliguei o computador para não ficar gastando energia e segui até o elevador - que pra variar estava quebrado - cheio de pessoas dentro... "Não tem problema" minha consciência me disse, "desça de escada, são só dois andares, um pouco de exercício vai fazer bem". A recepção estava uma bagunça, cadeiras jogadas pelas varias vidraças do térreo. Um zelador bem paciente varria as varias folhas de papel espalhadas pelo chão, com seus fones de ouvido aparentando não ter pressa nenhuma... assim como eu. Aceno pra ele que responde com um aceno de cabeça e um sorriso simpático, "vai ter muito trabalho hoje".
Andei até o ponto de ônibus e percebi que estava um congestionamento enorme: carros, ônibus e caminhões engarrafados desordenadamente... sinceramente acho que esse horário o trânsito sempre fica parado então resolvi seguir a pé pra casa até porque não é muito longe... alias, todos devem ter feito o mesmo que eu, uma vez que todos os veículos estavam abandonados.
Voltando andando pra casa pude reparar em coisas que talvez não perceberia cochilando dentro de um ônibus: Lojas sendo invadidas por vândalos e ladrões, toda a ação era muito rápida... pessoas não paravam de sair com televisões, sacos cheios de smartphones, etc... sinceramente não entendo porque fazem isso, mas também não vou questionar.
Mais alguns passos e uma esquina depois e me deparo com uma contradição: policiais militares que deveriam manter a paz e a ordem matando de porrada civis desordenadamente... não era tentativa de deter baderneiros, não era vontade de defender inocentes... era ódio puro versus medo puro, uma tentativa nula e viciante de tentar provar para si mesmo e para os outros em volta de que a P.M. estava no controle da situação... sem saber que faziam parte do caos. Achei melhor voltar pra esquina e seguir mais um quarteirão pra frente, atravessando uma praça mal cuidada. Além do lixo espalhado e da grama alta especificamente hoje tem muito mais pessoas se drogando do que nos outros dias, devem estar procurando o conforto mental que talvez só a droga pode proporcionar num momento desses. Consigo achar graça ao ver alguns viciados ensinando pessoas de terno e gravata a fumar craque, mas devo dizer que não é a primeira vez que vejo essa cena... logo estará muito parecido com os outros viciados.
Contorno o parque e viro a esquerda na próxima esquina, estou chegando em casa e é quando os edifícios vão dando lugar a pequenas casas de classe media, a cada 3 ou 4 casas de cada é possível encontrar bares, em alguns pessoas festejavam e bebiam como se não houvesse amanhã, em outros haviam silêncio fúnebre, mas estava cheio de boemios.
Finalmente cheguei em casa, posso ouvir fogos vindos do bar por onde passei... ou pelo menos espero que seja fogos de artificio. Entro em casa, faço cafuné no cachorro, coloco um pouco de ração no pote dele e me deito em minha cama na intenção de dormir um pouco... paro pra pensar em como a última hora passou e em toda aquela baboseira da noticia do fim do mundo... quer dizer, tirando essa noticia, toda a rotina de hoje - inclusive a última hora - foi muito parecido com qualquer outro dia: desordem, brigas, protestos, engarrafamento, tumulto, desespero, MEDO... tudo isso é tão comum, mas tão comum na rotina dessa cidade nos dias de hoje que poderia afirmar com toda certeza de que a vida vai continuar, que posso afirmar com toda a certeza que existirá um ama...
Autor: Vinícius Pacheco Silva
Enquanto os funcionários brigavam na tentativa de passar pela porta todos ao mesmo tempo, eu andei até a janela e pude ter uma visão panorâmica da cidade... uma bela obra de arte do caos com algumas pinceladas de fumaça. Tudo que fiz foi olhar no relógio e pensar "puxa, vou chegar tarde em casa". Não me levem a mal, só que quem mora em São Paulo sabe que toda aquela agitação, toda aquela desordem é diária... tenho certeza de que vocês leitores entenderão o que eu quis dizer nas próximas linhas.
Me demorei na espreguiçada e segui até a mesa para pegar minhas chaves, desliguei o computador para não ficar gastando energia e segui até o elevador - que pra variar estava quebrado - cheio de pessoas dentro... "Não tem problema" minha consciência me disse, "desça de escada, são só dois andares, um pouco de exercício vai fazer bem". A recepção estava uma bagunça, cadeiras jogadas pelas varias vidraças do térreo. Um zelador bem paciente varria as varias folhas de papel espalhadas pelo chão, com seus fones de ouvido aparentando não ter pressa nenhuma... assim como eu. Aceno pra ele que responde com um aceno de cabeça e um sorriso simpático, "vai ter muito trabalho hoje".
Andei até o ponto de ônibus e percebi que estava um congestionamento enorme: carros, ônibus e caminhões engarrafados desordenadamente... sinceramente acho que esse horário o trânsito sempre fica parado então resolvi seguir a pé pra casa até porque não é muito longe... alias, todos devem ter feito o mesmo que eu, uma vez que todos os veículos estavam abandonados.
Voltando andando pra casa pude reparar em coisas que talvez não perceberia cochilando dentro de um ônibus: Lojas sendo invadidas por vândalos e ladrões, toda a ação era muito rápida... pessoas não paravam de sair com televisões, sacos cheios de smartphones, etc... sinceramente não entendo porque fazem isso, mas também não vou questionar.
Mais alguns passos e uma esquina depois e me deparo com uma contradição: policiais militares que deveriam manter a paz e a ordem matando de porrada civis desordenadamente... não era tentativa de deter baderneiros, não era vontade de defender inocentes... era ódio puro versus medo puro, uma tentativa nula e viciante de tentar provar para si mesmo e para os outros em volta de que a P.M. estava no controle da situação... sem saber que faziam parte do caos. Achei melhor voltar pra esquina e seguir mais um quarteirão pra frente, atravessando uma praça mal cuidada. Além do lixo espalhado e da grama alta especificamente hoje tem muito mais pessoas se drogando do que nos outros dias, devem estar procurando o conforto mental que talvez só a droga pode proporcionar num momento desses. Consigo achar graça ao ver alguns viciados ensinando pessoas de terno e gravata a fumar craque, mas devo dizer que não é a primeira vez que vejo essa cena... logo estará muito parecido com os outros viciados.
Contorno o parque e viro a esquerda na próxima esquina, estou chegando em casa e é quando os edifícios vão dando lugar a pequenas casas de classe media, a cada 3 ou 4 casas de cada é possível encontrar bares, em alguns pessoas festejavam e bebiam como se não houvesse amanhã, em outros haviam silêncio fúnebre, mas estava cheio de boemios.
Finalmente cheguei em casa, posso ouvir fogos vindos do bar por onde passei... ou pelo menos espero que seja fogos de artificio. Entro em casa, faço cafuné no cachorro, coloco um pouco de ração no pote dele e me deito em minha cama na intenção de dormir um pouco... paro pra pensar em como a última hora passou e em toda aquela baboseira da noticia do fim do mundo... quer dizer, tirando essa noticia, toda a rotina de hoje - inclusive a última hora - foi muito parecido com qualquer outro dia: desordem, brigas, protestos, engarrafamento, tumulto, desespero, MEDO... tudo isso é tão comum, mas tão comum na rotina dessa cidade nos dias de hoje que poderia afirmar com toda certeza de que a vida vai continuar, que posso afirmar com toda a certeza que existirá um ama...
Autor: Vinícius Pacheco Silva

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