Maquina de Contos - Capitulo 6

    Um sono, uma fraqueza, um cochilo... abrir e fechar de olhos preguiçosos, uma espreguiçada, um sorriso no canto da boca. Essa é a rotina de Eliana após um bom sexo com David, um que ela não tem a anos, alias, que talvez nunca teve na vida, o melhor sexo... não quer admitir, mas talvez seu sorriso acabe denunciando isso. A cada flash, os melhores momentos iam e vinham na sua mente causando-lhe pequenas risadas ruborizadas. Se pegou imaginando de onde veio aquela "inspiração" toda, sentiu-se temerosa de uma traição, mas logo lembrou-se da manhã que David disse que queria escrever um livro, na verdade lembrou de toda a noite anterior - "Talvez este seja o modo de vida imprevisível de grandes artistas" - Pensou Eliana, lembrando de toda a montanha russa que foi a vida deles até aquele momento, das varias vezes que pensaram em desistir, das brigas que tiveram e que na verdade começavam com o intuito de incentivar um ao outro a não desistir, de como a vida deles melhorou financeiramente após o lançamento do primeiro livro de David e onde foi que o luxo começou, propostas indecentes de casais granfinos convidando-os para festas bacanais e apesar de beberem com muita frequência, sempre foram fiéis um ao outro, agiam como se fossem uma equipe totalmente em sintonia... pelo menos assim foi até David ser demitido da editora, "alias, cadê ele" Eliana se perguntava vendo que ele não estava ao seu lado na cama.

    David sentado nú em frente a maquina de escrever é a visão que temos neste começo de capitulo, faz um pouco mais de uma hora que ele permanece assim, não escreveu nada. Aguardou Eliana dormir, se sentou em frente a maquina de escrever e permaneceu assim... encarando a maquina, observando se não havia nenhum sinal de vida vindo dela. Queria também saber o que significava aquela frase no final do capitulo anterior. - enquanto continuar entregando sua vida aos cuidados da Maquina de Contos - David transitava seu raciocínio entre realmente confiar sua vida nas folhas que sairiam daquela maquina de escrever e uma possível ameaça.
    -Amor? Ta tudo bem? - Eliana disse realmente preocupada. Acontece que já fazia alguns segundos que ela estava ali, na porta da cozinha.
    - Ha! sim está... - David a principio tomou um susto, pensou em esconder seu corpo como se estivesse na presença de uma estranha, mas logo desistiu. - Estou reparando nos detalhes desta maquina de escrever.
    - Está me deixando com ciúmes querido. - Disse Eliana dando uma preguiçosa risada.
    - Não é isso, é que é uma maquina antiga, tem uma data de fabricação de 1910, mas não tem marca nem etiqueta de fabricante, o dono deve ser algum colecionador ou aspirante a escritor, talvez até mesmo um escritor famoso.
    - Duvido muito, amor... o rapaz que me vendeu não aparentava ter mais de 30 anos e parecia muito interessado em se livrar dela.
    - Poderia me levar até ele? estou muito curioso... - Na verdade David não pensava tanto em conhecer o antigo dono da maquina, mas de saber a origem dela, por mais que quisesse continuar com as histórias, sentia um medo de que estivesse botando a sua vida e a de Eliana em risco.
    O telefone toca interrompendo a conversa dos dois, Eliana atende e descobre que é da delegacia, um rapaz bêbado deu o telefone para que fossem buscá-lo. David atendeu o telefone já imaginando que seria...
    - Arthur, um conhecido do bar, parece que exagerou na bebida ontem e se envolveu numa briga.
    - E por que ele tem o numero de telefone daqui de casa?
    - Bom... ele deve estar achando que sou amigo dele, fui um bom ouvinte nos últimos dias. - David deu uma risada sem graça, mas resolveu prosseguir sem dar muitos detalhes, não poderia contar sobre a maquina porque isso seria a confissão de sua traição, isto é... se ela acreditasse. - Poderia investigar o antigo dono dessa maquina de escrever por favor? como já deu pra ver, provavelmente vou passar o resto da tarde ocupado.

    - Claro, mas terei que fazer isso um outro dia: Já estou muito atrasada, Dr. Hilbert vai me matar... - Assim Eliana disse voltando as pressas para seu quarto. Estava disposta a ajudar David, mas até ele retomar totalmente sua fama e seu talento, não podia parar de trabalhar como secretária do dentista Hilbert.
    Antes de sair, David olhou uma última vez para a maquina de escrever, percebendo que a ligação daquele começo de tarde já estava narrada na folha em branco depositada na maquina. David permitiu-se imaginar se aquela ligação foi alguma forma de tirá-lo daquele assunto tão preocupante: a origem da maquina de escrever.


***

    Lá estava o coitado do Arthur em frente ao estacionamento da mansão, sentado no meio fio da calçada, com seu mesmo terno de grife sujo com um liquido que pelo cheiro era champanhe, seu cabelo liso e cacheado agora se apresentava todo desgrenhado. Sua face apresentava uma derrota da noite passada... não era preciso perguntar como foi a reunião da noite passada e, por mais que David estivesse curioso para saber dos detalhes, não o faria por respeito ao luto de seu amigo.
    - Cadê as chaves do carro? - David pediu. Arthur permaneceu olhando para o meio da rua, um tanto apático... um tanto bêbado... colocou as mãos no bolso, tirou a chave e entregou para David que conversou com o segurança para poder buscar o carro.
    Minutos depois David sai do estacionamento já dirigindo o carro de seu amigo. Arthur somente entrou no lado do carona e em silêncio se encolheu no banco e permaneceu assim por toda a viagem. Todo o caminho foi acompanhado somente do barulho do motor do carro, mas eu poderia dizer que isso nem foi percebido por David... Arthur podia não ter tato para falar com pessoas, mas David queria ajudá-lo de alguma forma.
    - Chegamos... - foi a única coisa que David conseguiu dizer quando chegaram a casa de Arthur, este último ficou alguns segundos parado, olhando para o nada, parecia prestes a terminar um raciocínio na sua mente.
    - É engraçado como as coisas acontecem em ciclos, todos nós estamos presos em ciclos... talvez não tenha percebido o seu, mas desde pequeno sei qual é o meu. - Arthur se ajeitou melhor no banco, mas continuou vislumbrando o nada... talvez para não perder o raciocínio - Meu pai vivia me dando bonecos lego. A mansão que morávamos tinha uma sala somente para a coleção de lego e costumávamos montar juntos, eu e meu pai... Um dia eu estava irritado com uma viagem que meu pai  faria e comecei a destruir toda a minha coleção, quando ele chegou da viagem parecia triste... tudo que ele disse foi "você não sabe manter as coisas... vai perder muito assim". Mamãe me disse mais tarde que ele estava triste porque a empresa estava começando a falir, mas na verdade aquilo serviu como a definição do meu ciclo. Não importa se ele disse pra mim ou pra si mesmo, toda a minha vida esteve presa neste ciclo de lutar para construir algo bom e num piscar de olhos tudo simplesmente ruir com um toque meu...
    David se sentiu tocado de alguma forma pela história dos ciclos de Arthur, sabia mais que ninguém o que era estar preso nesse ciclo. Conseguia adaptá-lo perfeitamente a sua vida e de Eliana. Como o casal, desde que se conheceram lutaram para achar condições melhores de moradia, de emprego, mas nunca era o suficiente, sempre havia algo incomodando e, até mesmo quando seu livro fez sucesso, o casal sempre teve que se esforçar diante da classe esnobe para parecerem felizes... coisa que quanto mais fingiam menos era verdade.
    - Meus vários namoros, minhas varias amizades, meus vários projetos - Arthur continuava seu monologo - tudo foi envolvido neste ciclo, tudo construído com muito afinco e eu... Eu! destruía tudo rapidamente, só sobrou minha amizade com Gabriel durou mais que tudo. achei que ele fosse meu ponto de equilíbrio, alguém que quebrasse meu ciclo... Mas parece que consegui de novo. - Arthur estava com os olhos cheios d'agua quando abaixou sua cabeça, mas não  se permitiu cair uma gota de lagrima.
    - E por que não começa outro ciclo? - David dizia tomando um pouco as dores de Arthur - as coisas sempre vão ter um começo e um fim... ou um recomeço... seja lá como for todos nós lutamos para que as coisas boas durem o máximo possível e, quando acabarem... bem, pelo menos lute para acabar bem, pois de qualquer jeito algum dia acabara.
    - Esta dizendo para conseguir novas amizades, uma vida nova?
    - Talvez... se assim quiser, mas não á nada de errado em recomeçar um ciclo, retomar velhas amizades.
    Arthur parou alguns segundos para refletir, a principio parecia confuso, mas no final esboçou um sorriso.
    - Sabe... se não fosse um escritor poderia ser um bom psicologo.
    - Pois é, tenho certeza que num universo alternativo eu devo ter pelo menos tentado... agora preciso ir, já deve estar ficando estranho para o pessoal da sua vizinhança dois homens se demorando no carro. - David disse brincando.
    - Há sim, é verdade! - e Arthur disse levando a brincadeira sério demais.
    David saiu do carro, entregou a chave para Arthur estendendo sua mão. Arthur por sua vez ainda alterado pela bebida lhe deu um abraço dizendo o famoso "tu é um bom amigo... te considero pra caralho, sabia?". David só retribuiu o abraço e esperou que Arthur adentrasse na sua casa antes de ir embora. Apesar de David ser mais velho do que Arthur e Gabriel, sentia como se estivesse ajudando amigos da época da escola - amigos que foram esquecidos pela exigência da autarquia social que se encontrou após as vendas de seu primeiro livro. -  sentia que no minimo era um irmão mais velho ajudando seus dois irmãos mais novos, mais ou menos 10 anos mais novos, uma vez que Arthur se apresentava no auge de seus 25 anos e, melhor do que tudo isso, enquanto voltava de taxi para sua casa, David estava pela primeira vez após muito tempo, sentindo sua inspiração voltando junto com uma vontade enorme de escrever... mas a maquina de escrever aparentemente tinha outros planos para o "escritor falido".

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